Wednesday, August 22, 2007

[Verdade sincera]



É complicado ser sincero. Ser sincero demais está me obrigando a revelar certos segredos a pessoas com as quais eu convivo. Não que confessar-me seja ruim, de forma alguma, a única coisa de ruim é a angustia de viver escondendo coisas. Mas reflito: será que todo mundo se descobre e se expõe tal como é a todo mundo? Ou será que todos são capazes de jurar que não escondem nada? Eu descreio. Sempre há algo que se esconde. Sempre há alguma mancha no passado que preferimos tentar esquecê-la, sempre há algum defeito que preferimos maquiar.


Mas qual é o limite entre os que merecem saber a verdade e os que não merecem? Aonde essa linha fica nunca foi-me revelada. É fato que níveis maiores de amizade exigem cumplicidades maiores, mas quando é que essa cumplicidade passa a ser fator primordial? Quando ela passa a obrigar que revelemos segredos intimos?


Além disso, é dificílimo dizer aos outros aquilo que não costumamos dizer nem a nós mesmo. Afinal, boa parte de nossos segredos estão sepultados na égide da nossa memória e por lá ficam até que alguém os remexa. E exumar uma memória não é nada agradável. É empoeirado, tem ratos e baratas, além de aranhas e escorpiões.


Mas seremos sinceros. Seremos quando acharmos que devemos ser. Não me venham com o famoso clichê (redundância?): "Ser sincero sempre". Impossível. Ninguém é e nem desejo que sejam. mas na verdade o que eu desejo já é assunto para outro post.


Thursday, July 12, 2007

[Sentimentos]


Há tempo que eu só tenho colocado textos mais artísticos por aqui. Hoje eu vou voltar àquela série de textos crônicos. Fazem-me bem e não têm contra indicação.

Bem dialoguemos sobre os relacionamentos humanos. Sim, eles são complicados, e ninguém será capaz de provar-me o contrário. Relacionamentos em geral: amizade, paixão, amor, família.



Comecemos pela amizade. Eita sentimento estranho esse. Sim, estranho mesmo. São duas pessoas que se amam (não estranhem) mas não desejam o corpo alheio, não sentem ânsia em beijos e amassos. Amigos são dois seres que se gostam e se entendem. Se completam e complementam. Amigos são aqueles com os quais você fica horas e horas conversando e ainda assim reclama que passou muito rápido quando precisa ir embora.
Amizade é aquele sentimento que te sustenta, que te faz eternamente lembrar que existem pessoas preocupadas contigo. Reciprocamente, amigos te deixam extremamente preocupado. Quando um amigo começa a agir estranho, quando fica ausente ou qualquer problema de saúde que possa acontecer, uma coisa é fato: Lá se vão algumas noites de sono tranquilo.
Terminar um amizade é o mesmo que acabar com um namoro. É doloroso, ambos sofrem e as memórias permanecem.
Ter um amigo é a certeza de que alguém está perto de ti mesmo estando a quilômetros e quilômetros de distância. É ter alguém com o qual pode chorar as mágoas, festejar as alegrias, pedir conselhos, receber ajuda (e ajudar). Enfim, é alguém que sempre estará ao teu lado. Amigos são irmãos separados na hora do nascimento.
Mas não te engane, leitor. Ninguém consegue ter muitos amigos. Quem diz ter amigos demais um dia acaba por descobrir que a maioria eram míseros colegas.

Seguindo a ordem, chegou a hora da tão exasperada paixão. Ei-a! Maldoso sentimento carnívoro e frugívoro. Esse é o sentimento mais arrebatador que existe. Ele é aquele que te faz sair correndo, que te faz largar tudo que esteja fazendo e correr ao encontro do outro ser. É sentir carne contra carne, suor no corpo e respiração alfegante. É olhar nos olhos como quem diz ‘quero-te’. A paixão, no entanto, tem uma particularidade: ela acaba logo. Eu teimo com qualquer um que venha me dizer que paixão éum sentimento duradoudo. Não é. Paixão é o instinto humano de sexo. É querer sexo e nada mais.
Paixão é sentir as veias pulsarem de sangue, os músculos agitarem-se e os nerônios ferverem. É uma explosão hormonal, nem sempre concretizada, mas sempre idealizada. Ora pois, quem nunca fantasiou fantasias (pleonasmo?) sexuais que atire a primeira pedra.

Vamos ferrar com tudo agora. É o amor. Esse é o imperador, o maioral, o equivocado dono de tudo. Amor é complexo. Já falei sobre amizade, que é amor, paixão, que é amor, e estou a falar do amor, que é amor. Amor é gostar, e querer, é manter. Amor é suspirar, é chorar, é sentir falta. Amor é fingir odiar, é pretender gostar. Amor é preocupar-se, lembrar-se, nunca esquecer. Amor doi, fere, machuca, corroi, dilacera, oxida. Amor sangra e amor cura, amor corta e amor coagula; amor oxida e amor reduz; amor eletriza e amor descarrega; amor é antíteses e amor é paradoxo. A minha verdade é que em certos momentos da vida, o amor é a pior pedida. O amor te onera tempo e energia e algumas vezes isso é tudo o que você não tem para fornecer. Perceber isso é fundamental. Mas cada um sabe de si.


E por fim, chega a família. Confraternização de genes. Família perdeu o sentido original, ou seja, família deixou de ser ‘grupo de parentes’. Família são pessoas que estão contigo e que permanecerão haja o que houver. Família é que te suporta e te apóia. Por vezes, família é aquele grupo de parentes mesmo. Mas isso nem sempre acontece. Mas família não se resume a parentes. Um grupo de amigos constitui uma família. Amigos de verdade são tão intensos que são como se os cariótipos fossem semelhantes, como se tivessem nascidos juntos e fossem destinado para tal.
Família são aqueles que te levantam quando você caí e te bentratam quando se machuca. Família são os que acreditam em você e entendem-te. Mas são também os que te dão o soco quando necessário.

Acho que é só isso. Ame, transe, apaixone-se, desapaixone-se, sinta sem pudor. Perca o medo e a vergonha. Dispa-se da sociedade e faça aquilo que mais bem quiser. Vá onde der vontade (e aonde todo mundo vai), faça o que é legal (e não o que é modinha).

Fui-me.

Wednesday, June 27, 2007

[Gozo]




Eram nada mais do que dois corpos ardentes e apaixonados. O calor fugás, o suor tépido e o riso cálido entorpecia qualquer um que por perto passasse. A fuga, a fuga evasiva nada mais era do que uma farsa. Sair daqueles braços seria uma morte lenta, desistir não era cabível.

O sabor, o aroma, a textura. O corpo como um todo e não como parte. O riso como um rio de margens largas e grande curso, o rosto como o cativar que te tornas responsável, o ser como um deus.

Um misto de angústia e vontade, de sentir-se preso e querer libertar-se, de unir-se e não mais separar. Dois corpos cuja sintonia conjunta entrelaça-se e difrata-se pelo eu. Encontrando e esmoecendo. Corpos. União.

A surpresa e o encanto arrebatador sufocam as atividades pueris. Interrogar e sempre: o prazer de minha carne não é de outra senão de minha. E não sou outro que não tu.

Tuesday, June 19, 2007

[Queísmo]








Que a vida seja o começo de toda a desaventurança humana.
Que o amor seja o fim de toda a banal existência individual.
Que a paixão seja a interpérie de todo o momento extasiante.
Que o pensar seja a desenvoltura de toda a obra humana.
Que o questionar seja o fato primordial de todo real ser humano.
Que o aprender seja a vivência essencial de toda alma.
Que a amizade seja o motor perpétuo familiar.
Que o tempo seja o coadjuvante mas nunca o principal.

Que o problema seja sempre parte da solução.
Que a morte nunca seja o escape.
Que a solidão seja eternamente temporária.
Que a arte seja eterna expressão.
Que o corpo seja sempre o melhor instrumento humano.
Que o sexo não seja posto em pedestal.


Que o viver seja sempre o nosso próprio.
Que o sussurro seja sempre o comunicar dos amantes.
Que o beijo seja a melhor comunicação entre os apaixonados.
Que o olhar seja infinitamente mais importante que a palavra.
Que o preconceito seja abolido.
Que a voz seja ouvida.
Que o fantasma da nossa existência não caia no esquecimento.
Que o lugar mais meu seja eternamente meu.


Que o significado seja próprio.
Que a mulher seja sempre feminina.
Que o homem seja sempre protetor.
Que o susto nunca seja assustador.
Que o acidente seja sempre pressuposto.
Que o suicídio seja sempre acidental.
Que a morte seja possivelmente ocasional.

Wednesday, June 13, 2007

[Crescer]




Tenho que ir. Já faz hora.
Já faz hora de acordar sozinho
de aprender a comer.
Já são horas de brincar de coisa séria
e não entristecer por idiotices.

Está no tempo de aprender a ser gente
e não mais um mísero agente.
Deixar de ser uma voz passiva e passar a ser
ativa.


Vezes de apaixonar-se
sem ser Édipo.
De gostar-se
sem ser Narciso
De vencer
sem ser Aquiles.


O tempo passa...
Veja! Passou.
Nem vi. Foi.

Thursday, June 7, 2007

[Finalmente]





Com o tempo a gente começa a aprender certas coisas que antes não sabiamos. E vamos aprendendo, aprendendo e aprendendo numa freqüência que parece não ter fim. Mas eu tenho a impressão que de tempos em tempos temos flashs que em poucos segundos nos fazem entender coisas que estivemos remoendo por tempos. É num pequeníssimo segundo que recobramos a consciência, é num espaço infinitesimal que acordamos e nos damos conta de nós mesmos, nossa posição, do que acertamos, erramos e aprendemos.


Cresci. Sei que cresci. Aliás, crescer é algo que crianças fazem. Já não era mais criança, portanto, amadureci. É fato: o mundo ficou mais feio, mas ao mesmo tempo mais vivível.



Os sonhos de criança se desenvolveram. É algo simples: Antes, estava dirigindo um carro numa manhã com neblina. Dirigia devagar, nunca ultrapassava os 40km/h, e tudo a minha frente estava enevoado, obnublado, difícil de ver; a viagem era mais fácil, mas eu sempre estava inseguro. Hoje, toda a neblina passou e posso ver a estrada. Minha velocidade é sem limite, mas ainda permaneço na casa dos 120km/h, mas é tudo muito claro e eu posso ver que o caminho a minha frente é mais tortuoso do que eu achei que fosse. E com toda essa velocidade, a viagem acaba sendo mais perigosa, mas finalmente tenho mais segurança em mim mesmo.


É impossível não crescer, é impossível não perder a fragilidade infantil, a inocêcia pueril. Estou perdendo o medo que tinha quando era criança: o escuro não me assombra mais, relâmpagos não me assustam.


Meu conceito de amor está mudado. Amizade se transformou em algo totalmente diferente (mas os amigos de ontem, continuam sendo o de hoje). O sexo desceu do pedestal, o palco abriu as cortinas e o espetáculo finalmente iniciou. Acabaram-se os ensaios, foi o fim dos erros banais.
Mas nem todos os meu redor fizeram o mesmo. Mas são apenas crianças, e não deve a mim o dever de ensiná-los. Caro amigo que lê isso: não se ensina como amadurecer, mas pode-se fazer isso da melhor ou da pior maneira – escolha a sua. Estou me abstendo de várias coisas, de várias pessoas, confesso. De muitos isolado, de outros irritado, e da maioria, cansado, fatigado.


E estou confiante. É mais reconfortante quando se pode olhar para frente e dizer tudo o que planeja fazer e perceber os caminhos necessários a isso. Eu vinha estando ‘aéreo’ por alguns dias, mas agora entendi o porquê. Foi melhor assim. Agora entendo. Agora vejo.


Sei que esse texto não vai ser entendido por muitos (isso se houver alguém que possa entendê-lo além de mim). Mas é assim que é. É assim.



Tuesday, June 5, 2007

[...]



Sempre o mesmo
sempre o peso
sempre o caso
sempre o fato
sempre o choro
sempre o mesmo.

Nunca o contra-ponto
nunca o fogo
nunca o coro
nunca o mesmo espaço
nunca o gajo
nunca eu mesmo

O flexível
o maleável
o (in)substituível
o tangível
o compreensível
o eu mesmo.

Tese, antítese, síntese: Eu.


Murilo Reis

14/03/2007

23h21min