Friday, November 7, 2008

[Desilusão]



Há uma desilusão para tudo e para todos. Há uma desilusão para você que quando criança acreditou que poderia alcançar as estrelas, uma desilusão pra você que achou que o peixinho dourado do seu aquário, tão sorridente, jamais morreria. Para todos que colecionam selos sem mandar carta a destinatário algum. Existe uma desilusão para todos que, como eu, acreditaram um dia que ninguém tivesse coragem de matar a borboleta amarela vistosa que visitava o jardim da casa da minha avó todos os dias, inglesamente, às 5 horas da tarde. Há uma desilusão na foto rasgada no chão do quarto da garota que acreditou que pudesse e fosse passar o resto da sua vida ao lado do garoto do colegial, um ano mais velho que ela.

Existe uma desilusão em toda onda que morre no mar, todo raio de luz que tenha viajado anos-luz para chegar à Terra sem que ninguém o tivesse visto. É uma desilusão ao cometa que se incendeia sem que ninguém, ao menos um mísero mortal, tivesse feito algum pedido ao vê-lo.

Há uma desilusão em toda zebra que descobre ter passado a vida toda de pijama, em toda girafa que se descobre a mais alta da savana e em todo elefante que esquece o lugar onde nasceu. É uma desilusão à barata a repugnância que sentem por ela. O primeiro dente que nasce numa boca virginal, a primeira espinha do adolescente isolado, a primeira noite sem conseguir dormir do executivo de sucesso, o primeiro cabelo branco do jovem senhor, o último dente original da boca tão mastigada.

É a desilusão da desilusão da vida que leva todos os desiludidos a continuarem a viver. E enquanto houver um raio de sol haverá, em algum coração, a falta de uma ilusão.

Tuesday, November 4, 2008

[Porto Alegre, 10 de agosto de 1985]


Não era nada com você. Ou quase nada. Estou tão desintegrado. Atravessei o resto da noite encarando minha desintegração. Joguei sobre você tantos medos, tanta coisa travada, tanto medo de rejeição, tanta dor. Difícil explicar. Muitas coisas duras por dentro. Farpas. Uma pressa, uma urgência.E uma compulsão horrível de quebrar imediatamente qualquer relação bonita que mal comece a acontecer. Destruir antes que cresça. Com requintes, com sofreguidão, com textos que me vêm prontos e faces que se sobrepõem às outras. Para que não me firam, minto. E tomo a providência cuidadosa de eu mesmo me ferir, sem prestar atenção se estou ferindo o outro também. Não queria fazer mal a você. Não queria que você chorasse. Não queria cobrar absolutamente nada. Por que o Zen de repente escapa e se transforma em Sem? Sem que se consiga controlar.

Te escrevo com um cigarro aceso e uma xícara de chá de boldo. A escrivaninha é muito antiga, daquelas que têm uma tampa, parece piano. Tem um pôster com Garcia Lorca na minha frente. Um retrato enorme de Virginia Woolf. E posso ver na estante assim, de repente, todo o Proust, e muito Rimbaud, e Verlaine, Faulkner, Ítalo Svevo, William Blake. Umas reproduções de Picasso. Outras de Da Vinci. Um biscuit com um pierrô tão patético. Uma pedra esotérica ainda de Stonehenge, Inglaterra, uma caixinha indiana. Todos os meus pedaços aqui.E você não me conhece, eu não conheço você.

Te escrevo por absoluta necessidade. Não conseguiria dormir outra vez se não te escrevesse.Zelda, há também o único romance escrito por Zelda Fitzgerald, a mulher de Scott Fitzgerald, que morreu louca, um incêndio, um hospício. Chama-se "Save me the waltz". "Reserve-me a valsa", não é lindo? Lembra o Brahma, se se dançasse no Brahma.

Please, save me the waltz.

Caio Fernando Abreu

Friday, October 31, 2008

Tuesday, October 28, 2008

Sunday, October 26, 2008

[Scream]


"Grite", ordenei-me quieta. "Grite", repeti-me inutilmente com um suspiro de profunda quietude. (...) Mas se eu gritasse uma só vez que fosse, talvez nunca mais pudesse parar. Se eu gritasse ninguém poderia fazer mais nada por mim; enquanto, se eu nunca revelar a minha carência, ninguém se assustará comigo e me ajudarão sem saber; mas só enquanto eu não assustar ninguém por ter saído dos regulamentos. Mas se souberem, assustam-se, nós que guardamos o grito em segredo inviolável.

Clarice Lispector

Thursday, October 23, 2008

[O salto]


A gente não tem como saber se vai dar certo. Talvez, lá adiante, haja uma mesa num restaurante, onde você mexerá o suco com o canudo, enquanto eu quebro uns palitos sobre o prato -- pequenas atividades às quais nos dedicaremos com inútil afinco, adiando o momento de dizer o que deve ser dito. Talvez, lá adiante: mas entre o silêncio que pode estar nos esperando então e o presente -- você acabou de sair da minha casa, seu cheiro ainda surge vez ou outra pelo quarto –, quem sabe não seremos felizes? 
Entre a concretude do beijo de cinco minutos atrás e a premonição do canudo girando no copo pode caber uma vida inteira. Ou duas.
Passos improvisados de tango e risadas, no corredor do meu apartamento. Uma festa cheia de amigos queridos, celebrando alguma coisa que não saberemos direito o que é, mas que deve ser celebrada. Abraços, borrachudos, a primeira visão de seu necessaire (para que tanto creme, meu Deus?!), respirações ofegantes, camarões, cafunés, banhos de mar – você me agarrando com as pernas e tapando o nariz, enquanto subimos e descemos com as ondas -- mãos dadas no cinema, uma poltrona verde e gorda comprada num antiquário, um tatu bola na grama de um sítio, algumas cidades domesticadas sob nossos pés, postais pregados com tachinhas no mural da cozinha e garrafas vazias num canto da área de serviço. Então, numa manhã, enquanto leio o jornal, te verei escovando os dentes e andando pela casa, dessa maneira aplicada e displicente que você tem de escovar os dentes e andar ao mesmo tempo e saberei, com a grandiosa certeza que surge das pequenas descobertas, que sou feliz.Talvez, céus nublados e pancadas esparsas nos esperem mais adiante. Silêncios onde deveria haver palavras, palavras onde poderia haver carinho, batidas de frente, gritos até. Depois faremos as pazes. Ou não?
Tudo que sabemos agora é que eu te quero, você me quer e temos todo o tempo e o espaço diante de nossos narizes para fazer disso o melhor que pudermos. Se tivermos cuidado e sorte – sobretudo, talvez, sorte -- quem sabe, dê certo? Não é fácil. Tampouco impossível. E se existe essa centelha quase palpável, essa esperança intensa que chamamos de amor, então não há nada mais sensato a fazer do que soltarmos as mãos dos trapézios, perdermos a frágil segurança de nossas solidões e nos enlaçarmos em pleno ar. Talvez nos esborrachemos. Talvez saiamos voando. Não temos como saber se vai dar certo -- o verdadeiro encontro só se dá ao tirarmos os pés do chão -- mas a vida não tem nenhum sentido se não for para dar o salto.


Antonio Prata

Friday, October 17, 2008

[Romantique]


Não há no mundo lei que possa condenar, alguém que a um outro alguém deixou e amar.

Maria Rita